As minhas viagens de metro #13


«A gente sempre acha que é especial na vida de alguém, mas o que te garante que você não está somente servindo para tapar buracos, servindo de curativo para feridas antigas?», Caio Fernando Abreu 


Já não me lembrava de como a tua voz era ligeiramente grave, por vezes num tom rouco que me eriça a pele. Com um timbre doce, que parece aconchegar-me num abraço apertado, daqueles que nos fazem sentir seguros e preparados para enfrentar qualquer batalha.

A tua súbita ausência levou-me a perder estes detalhes, como o cheiro do teu perfume, o formato do teu sorriso, a tua voz. Tudo isso fazia-me sentir em casa, independentemente do sítio onde estivesse. Esse tom familiar com que todos os dias me recebias foi-se perdendo. Levaste-o contigo quando decidiste partir não sei bem para onde, mas sem nunca deixares de estar suficientemente perto. Só deixei de te ver. De te ouvir. De saber de ti. Ainda que tantas vezes estivéssemos debaixo do mesmo teto e pisássemos o mesmo chão.

Por instantes odiei ouvir-te. Odiei a sensação de me sentir novamente presa ao encanto de te voltar a ter na minha vida como antes. Mas foi tudo tão fugaz. O tempo não foi suficiente para te sentir a regressar. Tu não regressas, a menos que tudo mude numa volta de trezentos e sessenta graus. E eu deixei desaparecer esse ódio. Não fui feita para isso. Não te consigo odiar. E mesmo que não compreenda como chegamos aqui e mudámos tanto, não consigo odiar os caminhos que passamos a percorrer em separado. Acredito que tudo acontece por uma razão. Talvez este afastamento tenha sido o melhor que me aconteceu, só ainda não consigo ver isso nitidamente, mas irei lá chegar. 

A não ser que a vida te troque as voltas, eu sei que te perdi para sempre. A única coisa boa nisto tudo foi perceber que o meu coração não estremeceu quando as tuas palavras ecoaram nas minhas costas. As minhas pernas não cederam. O meu olhar não procurou um alvo diferente, longe de onde tu estavas. E o meu sorriso não escondia mais nada, apenas a normalidade de um sorriso comum a tantos outros que partilho no meu dia-a-dia. 

Não posso esconder que ainda há uma máscara de melancolia que coloco quando te encontro sem contar e não trocamos mais do que meia dúzia de palavras banais. Apenas pela circunstância de ainda sermos conhecidos. Mas é só isso: melancolia. Não raiva por teres ido sem ser capaz de dizer adeus ou receio por teres a força suficiente para me levares a vacilar no meu processo de esquecimento. Apenas uma melancólica saudade, que vou curando pela persistência de ser eu a despedir-me. De vez!

Confesso, foi cruel ouvir a tua voz hoje. Foi como se a ferida tivesse acabado de formar crosta e a arrancasse sem piedade. No entanto, ela volta a crescer, nem que seja pelo facto de tão cedo não te voltar a encontrar. E mesmo que isso se repita mais vezes hei-de ser capaz de superar outra vez. E outra. E mais outra. Até não fazer qualquer diferença.

Já não sei quem és para mim: se um estranho que completa o meu passado ou simplesmente passado sem sinais de virar futuro. E depois de tudo isto duvido que alguma vez tenha sabido quem era para ti. Só sei o que quero daqui para a frente. E cada vez mais me convenço, pelas provas que me dás, que isso não te inclui. 

M, 05.11.2013

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27 comentários

  1. Estou encantada com os teus textos Andreia :D
    Continua que eu vou continuar a seguir-te ;) *

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  2. Oh, é tão bom ler isso! Muito obrigada, Filipa :)

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  3. Gostei imenso do texto. Não me canso de dizer que tens imenso jeito para a escrita :)

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  4. Estás em que curso :O vais seguir algo ligado à escrita?

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  5. És sempre tão querida! *.* Obrigada do fundo do coração :') E sim, é realmente muito bom. Enche-nos o coração :)

    Beijinhos, princesa* ♥

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  6. Eu adoro a tua maneira de escrever!
    Adoro mesmo*

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  7. Tu escreves mesmo mesmo bem e és uma querida! Acho que já te perguntei mas que curso seguiste? É uma pena se não for ligado à escrita porque te manifestas super bem através dela

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  8. Agora é seguir em frente! O passado ficou para trás e não vale espreitar por cima do ombro!

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  9. Ah pois é na ESE do Porto, a minha melhor amiga também tirou esse curso e agora já está no fim do mestrado. queres seguir para educadora de infância ou professora? sei que no teu curso tens mesmo que tirar o mestrado :/

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  10. Meu Deus, que linda *.* És maravilhosa!

    Beijinho, coração* ♥

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  11. Adorei o texto, como sempre! :) Devias considerar escrever um livro.

    http://morningdreamsfree.blogspot.com/

    Sofia Silva

    Beijos*

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  12. r: Ora essa!
    Só disse a verdade ;)

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  13. Não pode calhar sempre à mesma :D ♥

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  14. O meu é de amanhã a oito, sexta feira treze ahah

    Eu era a Nea, do Never Give Up

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  15. Está-lhe a correr muito bem, como ta tirou o mestrado de educadora de infância que só dura um ano está mesmo a terminar e com sucesso e está super feliz. Tens de escolher querida boa sorte porque acredito que não seja fácil

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  16. Que texto lindo amiga, você sempre me surpreende!
    Bjoss!!
    http://chuvadecamelias.blogspot.com.br/

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  17. E de repente consegues nos transportar para este lugar... Parabens!

    Sónia
    Taras e Manias

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  18. Aqui estou eu, arrepiada com o texto. Porque tudo encaixa e é assustador o quanto eu queria escrever o mesmo, sem mudar uma vírgula. "A tua súbita ausência levou-me a perder estes detalhes..." Que telepatia, god!

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  19. Amei o texto. Só me fez lembrar uma música da Mafalda Veiga que adoro e que, a certa altura diz "é tudo tão fugaz e tão breve"

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  20. "E cada vez mais me convenço, pelas provas que me dás, que isso não te inclui." Há pessoas que simplesmente não valem a pena.
    É sempre tão bom ler-te :)

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  21. ler isto enquanto que ouço a "say sometinhg" deixou-me emocionada... Escreves tão bem... :))

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  22. São poucas as pessoas que me comovem quando escrevem, tu és uma delas.
    Escreves mesmo muito bem

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  23. Andreia foi a primeira visita que fiz ao teu blog, mas adorei a tua forma de escrever: Keep going! Bom fim de semana!

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  24. Os teus textos surpreendem sempre :) tens um frasear muito bom

    http://retromaggie.blogspot.pt/

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