Entrelinhas #3

By Andreia Morais - junho 19, 2014


«A Catarina e o Manel são um casal como os outros: gostam de passar uma tarde no sofá a ver televisão, adoram viajar, ler, ouvir música, tirar fotografias, cantar no carro... A Catarina e o Manel são um casal apaixonado, que sonha ter filhos e vê-los crescer felizes. Mas o que torna este casal tão particular não são as semelhanças com todos os outros mas as diferenças. Na verdade, este casal tem pouco de normal. Lá em casa as regras são muito particulares e códigos de conduta para levar a sério. O tempo mede-se em épocas e não em anos; acorda-se a falar de contratações e a discutir técnicas e tácticas; entre arrumar cozinha e pôr a roupa a lavar há sempre um "piropo" a um árbitro; as festas e jantares são organizados em relação directa com o horário dos jogos....» 


Lá em casa mando eu. Dito assim, sem rodeios, sem antecedentes, sem imagens que demonstrem a realidade por trás do nome, podia ser a narrativa de alguém autoritário, que só aceita as suas próprias ideias e que se rege pela velha máxima do «quem é que veste as calças cá em casa, afinal?». Não é, felizmente. E acredito que não tivesse metade do encanto que esta história tem. «Lá em casa mando eu» é sobre futebol. Mas engane-se quem pensa que é um livro com técnicas e tácticas exploradas a fundo, com descrições exaustivas de modelos de jogo e as características das equipas, acompanhadas pela história de todos os campeonatos a que estão associadas. Este livro mostra-nos, através das experiências de dois intervenientes, o lado mais emocionante e humano deste desporto: o adepto.
 
Acompanho o blog da Catarina e do Manel - a C. e o M. do Lá em casa mando eu - há algum tempo. Dispensei os apelidos de ambos por me sentir em casa quando lá entro. Não entendam isto como presunção da minha parte, até porque não os conheço para ter esse grau de intimidade, mas não consigo não me sentir assim quando em meia dúzia de linhas leio o meu coração por inteiro. Até mesmo quando os textos se pintam de vermelho, porque há algo mais importante que a cor: o amor que se tem a um clube.

Sou mais nova e não vivi metade daquilo que viveram pelos clubes, mas partilho vinte e dois anos de «Ser Porto». Mal sabia falar e já o meu amor azul era de uma convicção inalterável, mesmo quando o meu pai ralhava comigo e eu lhe dizia que não era do Porto, mas do Benfica ou do Sporting. Na minha inocência devia achar que aquilo o ia demover de me chamar à atenção, como se sentisse o coração tão pesado e perdesse as forças, porque ter uma filha que não fosse do Porto era mais doloroso do que tudo o resto. Não podia estar mais enganada! Mas, no fundo, sempre soube que só o dizia da boca para fora, porque segundos depois já andava a cantarolar algum cântico pintado deste azul-amor infinito. 

Não é segredo para ninguém que adoro futebol. Independentemente do clube de cada um, os adeptos têm mais coisas em comum do que aquilo que julgam. Mesmo um benfiquista e um portista. Naturalmente, quem é portista tem muito melhor gosto - o que nos dá assunto para outra altura -, mas, e volto ao mesmo, é o amor que está na base de tudo. É por isso que tantas vezes, ainda que o tentemos ocultar, percebemos a dor, o sofrimento, as lágrimas, a euforia, o sorriso rasgado, o coração prestes a sair do peito de um rival. Todos nós já passamos por isso. Já sentimos na pele. Já vimos sonhos desfeitos, a acabar cedo de mais. E este livro é a prova do quanto os nossos caminhos se cruzam, mas mantendo sempre aquele ódio de estimação. 

Li-o em duas tardes. Alguns dos textos já os conhecia, mas não os passei à frente, pois é sempre bom recordar aquilo que de tão magnífico tem o futebol: as memórias de tempos felizes. Podia ter queimado os textos do Manel, por representarem uma realidade que nunca quis que fosse a minha, mas optei por não o fazer. É que por um adepto como ele vale a pena fazer o esforço de ler sobre as vitórias do Benfica. Indiscutivelmente, os textos da Catarina têm um toque mágico, ou não estivesse familiarizada com as histórias que conta, mesmo que a minha idade e as circunstâncias não me tenham permitido viver tudo aquilo de perto. 

Dividido em seis grandes temas, o «Lá em casa mando eu» conta-nos a vida de dois adeptos em função do clube. A vida do clube aos seus olhos. E todas as histórias que se recordam desde tenra idade. Há textos para todos os gostos e para todas as ocasiões. Que nos fazem parar no tempo e querer viver tudo aquilo novamente. Ou, simplesmente, voltar atrás para reescrever o final. Está lá tudo, desde a conquista do mundo à queda de joelhos. E por mais aliciantes que sejam as memórias, há algo que está sempre presente: nas vitórias e nas derrotas, por mais enfurecidos que possamos estar, não arredamos pé. Pisamos o topo do mundo ou caímos a pique sempre de mãos dadas ao emblema que temos cravado no peito.  

O humor presente em cada texto, aliado às recordações, é convidativo para se saber mais. É impossível não se ficar mais adepto depois de ler um texto deles, porque a intensidade dos factos é mesmo de arrepiar. E chega a comover. Acho que o pior que lhes pode acontecer é terem um filho que não goste de futebol ou que seja do Sporting, mas enquanto isso não acontece aconselho a visitarem o blog e a comprarem o livro, sejam os maiores apaixonados por futebol ou não. Ri muito, mas também senti algumas lágrimas nos olhos à medida que ia virando as páginas. É intenso. Mas, sobretudo, é verdadeiro. É a realidade que partilhamos com tantos sem saber. E a oportunidade de nos sentirmos um pouco mais perto de um clube que é tão nosso. A magia do futebol passa muito por tudo aquilo que se vive nas bancadas. Ou em frente ao computador enquanto descrevemos tudo o que sentimos ao ver o nosso clube fazer o jogo da nossa vida. E isto, para quem é adepto, será sempre das melhores coisas da vida. 


Agora deixo-vos algumas citações:

«Lá em casa não há aquele "TOMAAAAAAAAAAAAAAA!" que tanto prazer me deu gritar no domingo no Dragão, com alguns substantivos e adjectivos dos quais pouco me orgulho pelo meio. Não há gestos feios, palavras ofensivas ou provocações, como já fomos apanhados a fazer na televisão. No fundo, lá em casa somos uns totós», C.

«M., meu amor, nos próximos dias vou torcer mais do que nunca contra o teu clube. Espero que os planetas finalmente se alinhem e vocês empatem com o Estoril, sejam goleados no Dragão e ainda percam com o Moreirense só para eu me rir», C.

«E a nossa vida é capaz de vir a ser sempre assim. Já imaginámos a senhora do infantário a perguntar sobre o nosso filho: "Então e o Oscar Cardozo Pereira Neves nasceu em que dia?" E nós: "Hum... estava a dar um Rio Ave-Paços de Ferreira que ficou 2-2. Chovia... ah, tantos de Fevereiro!», M.

«O M. tem uns boxers do Benfica. E eu podia terminar o texto aqui que vocês já iam gozá-lo o suficiente. Mas não, há mais. O M. convenceu-se que, usando aqueles boxers nos jogos, o Benfica seria invencível (...) Curiosamente, os boxers começaram por não estar lavados nos dias de jogo e agora, sinceramente, já nem sei onde eles andam. Podem ter ido parar ao fundo do Tejo, podem ter sido queimados numa tarde de magia negra, enfim, quem pode saber?», C.

«Um filho nosso não gostar de futebol seria uma vergonha, uma daquelas coisas que nos ia magoar perpetuamente», M. 

«Este adepto chama-se Augusto Ribeiro, tem 55 anos e está desempregado. Esta época, pela primeira vez, não tinha dinheiro para comprar o lugar anual no Estádio do Dragão. Por isso, os amigos juntaram-se e ofereceram-lho. Diz um deles que o FC Porto não pode viver sem o senhor Augusto. E é verdade. O FC Porto só é o FC Porto porque tem adeptos assim», C.

«É como um desgosto de amor. Falta-nos o chão, fica um nó na garganta, há um vazio muito grande cá dentro. Faltam-nos as pernas e sobram-nos as lágrimas. É como levar uma bala em cheio no coração: a vida corria bem, íamos ser felizes para sempre, e de repente há um contra-ataque, ninguém faz falta e há um baque cá dentro, e é como se ouvíssemos o tecido do nosso coração a rasgar», M. 

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12 comentários

  1. Vou seguindo este divertido casal no twitter e adoro lê-los. Depois do que li aqui fiquei super curiosa com o livro! Vai para a minha lista já gigante :D E claro, o M tem um gosto brutal ;)

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  2. Sem dúvida alguma, princesa e são essas coisas que devemos aprender a valorizar :) Fico feliz por assim ser!

    Beijinho enorme, linda* ❤

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  3. Pensamos da mesma forma quanto a isto sendo assim, linda :) ❤

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  4. Não conhecia este Blog, Vou espreitar ;)

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  5. Eu sei que sim, até mesmo a eternidade tem um fim.

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  6. Deve ser um atrofio, ainda bem que por aqui ambos somos benfiquistas :D

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  7. Fiquei mesmo curiosa.. Vou mesmo ter que visitar esse blog.

    Bjxxx

    Ps- já te estou a seguir.

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  8. O livro parece ser bastante convidativo a ler, fiquei bastante curiosa :)
    beijinhos
    http://retromaggie.blogspot.pt/

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